Pagar o plano de saúde todo mês e, mesmo assim, evitar marcar uma consulta para não ter despesa extra. Essa contradição deixou de ser exceção e virou rotina para a maioria dos brasileiros com cobertura privada. Um levantamento internacional divulgado em fevereiro de 2026 revelou que quase 6 em cada 10 beneficiários no país já desistiram de procurar atendimento médico por causa do quanto aquilo pesaria no bolso.

59,2%
dos beneficiários brasileiros já adiaram ou abriram mão de um atendimento médico por causa do custo — contra 54,2% na média mundial.

De onde vem esse número

O dado faz parte do Relatório Global sobre Saúde Corporativa 2026, produzido pela Howden, corretora internacional especializada em seguros de alta complexidade. A pesquisa ouviu 442 empregadores — 27 deles no Brasil — e 1.460 funcionários, montando um retrato amplo das tensões que cercam os planos de saúde corporativos. A repercussão começou após reportagem do Valor Econômico, em 20 de fevereiro de 2026.

Quando se olha apenas para o Brasil, o cenário é ainda mais agudo do que a média internacional: 59,2% dos entrevistados no país afirmaram que o valor a desembolsar já os impediu de buscar cuidado médico quando precisavam. No mundo, esse percentual fica em 54,2%.

A coparticipação no centro da conta

Boa parte da explicação está em um mecanismo que se espalhou pelos contratos empresariais nos últimos anos: a coparticipação. Nesse modelo, o beneficiário paga uma fatia de cada consulta, exame ou procedimento, além da mensalidade. A ideia é desestimular o uso desnecessário e segurar custos — mas, na prática, também acaba afastando quem realmente precisa.

Para conter despesas e manter os planos sustentáveis, as operadoras passaram a oferecer às empresas mais ferramentas de controle de uso. Soma-se a isso o reforço no combate a fraudes — biometria facial, códigos de uso único para liberar atendimento na rede, checagens mais rígidas de reembolso. Cada uma dessas camadas, ainda que justificável, transfere parte do custo para o paciente.

Cláudia Machado, vice-presidente de benefícios da Howden Brasil, resume o dilema com uma metáfora: todas essas medidas são necessárias, mas a dose do remédio não pode virar veneno. Em outras palavras, o controle excessivo de custos pode acabar minando o próprio motivo de existir do benefício.

Quando economizar hoje sai mais caro amanhã

Adiar um exame ou uma consulta raramente faz o problema desaparecer — costuma fazê-lo crescer. Um quadro que poderia ser resolvido cedo se agrava, exige tratamento mais complexo e gera afastamento. Para as empresas, a fatura aparece em absenteísmo, presenteísmo (quando o funcionário está presente, mas rende pouco), quedas de desempenho e custos de substituição.

A tendência, segundo o estudo, é de pressão crescente: 93% dos empregadores ouvidos no mundo esperam que os custos com benefícios de saúde voltem a subir em 2026. Ou seja, o aperto que já leva tanta gente a evitar o médico deve ficar mais intenso.

Saúde mental: o custo do silêncio

O relatório também acende um alerta sobre o cuidado emocional no trabalho. Globalmente, 49% dos funcionários recorreram a algum tipo de apoio psicológico no último ano. Ainda assim, 16% disseram não se sentir à vontade para usar os serviços oferecidos pela empresa, principalmente por medo de exposição ou de prejuízos na carreira.

No Brasil, os números ajudam a dimensionar o problema: em 2025, o país somou mais de 546 mil afastamentos ligados à saúde mental, o segundo maior total da série histórica do Ministério da Previdência. Casos de ansiedade e depressão cresceram 15% em relação ao ano anterior e já são a segunda principal causa de afastamento, atrás apenas das doenças da coluna.

Mesmo assim, o plano continua valioso

Apesar dos entraves, ter um bom plano de saúde segue sendo um dos benefícios mais valorizados por quem trabalha. No Brasil, 78% dos respondentes dizem que uma boa cobertura ajuda a atrair profissionais, e o mesmo percentual considera o benefício essencial para retê-los. Para 80%, o plano influencia diretamente a produtividade.

Há ainda um sinal positivo: enquanto 79,9% dos trabalhadores no mundo se dizem confortáveis com as opções de tratamento oferecidas, no Brasil esse índice sobe para 92,6%. O problema, portanto, não é a existência do benefício — é o custo de efetivamente usá-lo.

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Conclusão

O estudo da Howden expõe um paradoxo incômodo do mercado brasileiro: o plano de saúde continua sendo um dos benefícios mais desejados, mas o custo de usá-lo afasta justamente quem mais precisa de cuidado. Enquanto o setor busca equilíbrio entre sustentabilidade e acesso, o consumidor pode se proteger conhecendo bem o próprio contrato, comparando alternativas e não deixando a prevenção de lado. Cuidar da saúde não deveria depender de hesitar diante da conta.

Este conteúdo é informativo e não substitui orientação médica, jurídica ou de um corretor habilitado.

Fontes consultadas: Howden — Relatório Global sobre Saúde Corporativa 2026 · Valor Econômico (20/02/2026) · SindsegSC / CQCS (23/02/2026) — "Custo alto afasta quase 60% dos brasileiros dos planos de saúde" · Ministério da Previdência — afastamentos por saúde mental (2025).